23 de jan. de 2007

Beck - Reinvenção da Política

Modernização Reflexiva

A idéia do livro foi de Ulrich Beck, contando com a adesão de Scott Lash e Antony Giddens. Os três autores identificaram pontos em comum nas teorias que desenvolvem, convergindo para o que decidiram charmar de “reflexividade” da modernidade. O método de construção da obra constitui-se por textos dos autores, seguidos de “réplicas” dos mesmos como feedback dos posicionamentos adotados pelos demais.

Capítulo 1 – Reinvenção da Política: Rumo a uma teoria da modernização reflexiva (Ulrich Beck).

Afinal, o que é modernização reflexiva? Pode-se dizer que é a possibilidade de autodestruição da sociedade industrial, onde o sujeito dessa revolução constitui, paradoxalmente, a vitória da modernização ocidental. A verdade é que uma série de modificações na sociedade contemporânea se deu fora das estruturas da modernidade simples, como uma conseqüência da própria modernidade. Ou seja, essa transição se deu fora das estruturas ortodoxas da política, contrariando as previsões, inclusive da sociologia clássica.

A Reflexividade se dá, asssim, em uma sociedade caracterizada pelo gerenciamento do risco. A modernidade gera perigos que não consegue mitigar. A sociedade, entretanto, na busca das soluções, ainda toma decisões segundo padrões da velha sociedade industrial, obscurecendo as organizações de interesse, o sistema judicial e a própria política.

Vê-se, dessa maneira, que “modernização reflexiva” refere-se à circunstância em que há uma autoconfrontação (e não uma reflexão, no sentido de compreensão cognitiva). Assim, “modernização reflexiva” significa a autoconfrontação com os efeitos da sociedade de risco e que não foram resolvidos pela sociedade industrial, cujas instituições não estão preparadas para a mudança.

Por outro lado, as modificações das últimas três décadas levaram a um “processo de individualização” - que não significa aquela individualidade do liberalismo (atomização, isolamento, solidão, desconexão), mas a possibilidade de construção da biografia pelos próprios indivíduos (decisões básicas sobre sua própria história). As oportunidades e riscos dessa construção, contudo, não encontram mais nenhum suporte na comunidade ou no grupo social, o que poderia servir de conforto.

Além disso, nessa sociedade de gerenciamento de riscos, é muito difícil estabelecer, por exemplo, uma lista hierárquica de valores sobre riscos das empresas, dos empregos, da saúde e do ambiente, obscurecendo o horizonte à medida que os riscos crescem.

A sociedade industrial, portanto, e o Estado, por conseqüência, estão sujeitos à racionalidade instrumental. Contudo, a sociedade de risco e sua imprevisibilidade e efeitos colaterais conduzem, contraditoriamente, a um reino de incerteza e de ambivalência. Em suma, ao reino da alienação.

Nesse contexto, os instrumentos de coordenação social da modernidade simples são insuficientes para lidar com a ambivalência. É assim que essa ansiedade invade as sub-regiões individuais, desconsiderando limites regionais, nacionais, políticos e científicos, servindo de base para uma autocrítica da sociedade.

Essa crítica pode ocorrer no padrão de controle racional instrumental ou por meio de um repensar, que aceite a ambivalência na sociedade em risco. A primeira forma é o que podemos considerar como linear; a segunda é reflexiva.

A reflexividade da modernidade e a individualização dos indivíduos leva a que cada um tenha que decidir sua biografia, justamente nesse contexto de incerteza. “Individualização” é, portanto, a desincorporação e, após, a reincorporação dos modos de vida da socidedade industrial de uma maneira diferente, onde os indivíduos devem produzir, representar e acomodar suas próprias biografias (daí a palavra individualização).

Na sociedade industrial clássica, as formas coletivas de viver faziam (fazem) supor que a classe indica a família nuclear, que presume os papéis do sexo, a divisão do trabalho entre homens e mulhres e também o casamento. Hoje, essas pressuposições não são mais válidas. O indivíduo é ator, planejador, prestidigitador e diretor de sua própria biografia, identidade, redes sociais, compromissos e convicções. Assim, a biografia padronizada dá lugar à uma biografia escolhida (ou do tipo faça-você-mesmo – Ronald Hitzler).

Essa individualização não se resume à vida privada, extrapolando para o político. Como conseqüência, as instituições estão se tornando irreais.

Em suma, emerge um mundo duplo, caótico de conflitos, jogos de poder, instrumentos e arenas que se vinculam a duas épocas diferentes: a do “não ambíguo” e aquela da modernidade “ambivalente” (Bauman). Disso resulta instituições políticas vazias bem como o renascimento não institucional do político (subpolítica), fazendo com que o político ultrapasse as barreiras das hierarquias formais. Tal fenômeno é muitas vezes mal compreendido, principalmente por aqueles que vinculam a política ao próprio Estado.

Assim, as estruturas políticas da sociedade industrial estão se tornando um não político e o que não era político assim passa a se constituir, em uma mudança da categoria do político sem as correspondentes alterações nas instituições e nas elites. (assim, procuramos o político no lugar errado, nas tribunas erradas e nas páginas erradas dos jornais) + citação p. 30.

É certo, portanto, que a classificação da política em direita e esquerda já não é possível, assim como não é possível a classificação de conservador e socialista, retraimento e participação. Isso porque todos são radicais e conservadores, ecológica e antiecologicamente, política e não-políticamente, tudo ao mesmo tempo, fazendo desaparecer a clareza daquelas classificações.

Neste caminho, relembra-se que a ciência política estabeleceu o conceito de política em três aspectos: A constituição institucional da comunidade política na sociedade (polity); As políticas públicas (policy); e o conflito com relação à divisão e posição de poder (politics).

O conceito de subpolítica (sub-politics), assim, conceitua a situação em que agentes externos ao sistema político ou corporativo participem do planejamento social, seja por meio de grupos ou mesmo individualmente. A aplicação desse conceito na divisão clássica da ciência política gera uma série de indagações referentes ao funcionamento dessa nova maneira de participação política, como fontes de poder, forma de organização, estratégias, fóruns, coalizões etc. Esse processo da subpolítica significa, portanto, moldar a sociedade de baixo pra cima.

Devemos, nesse sentido, buscar investigar a síntese desses códigos, para que possamos conhecer as origens de sua produção, buscando alcançar uma percepção que integre arte e ciência, tecnologia e ecologia, economia e política.

Nesse novo mundo, constata-se que a migração da tecnologia de seu contexto militar e econômico para a sociedade industrial, transformando-a, é comparável à abolição da ordem feudal divinamente ordenada. A questão tecnológica, portanto, deve ser tratada com todo o seu potencial, afastando-a tanto quanto possível do aspecto econômico, devendo ser tratado como uma atividade oficial, assim como aconteceu com a educação no século XX.

Assim, constata-se que a nova sociedade deve aprender a lidar com a ambivalência característica de nossa condição pós-moderna. Para isso, deve deixar de lado a concepção de que os sistemas especialistas sabem exatamente o que é certo e bom para todos (desmonopolização da especialização), não devendo aceitar que a forma de participação não continue fechado por questões internas aos especialistas (informalização da jurisdição). Sua participação deve partir do princípio de que influenciará efetivamente as decisões, não sendo a participação mera ratificação de uma decisão anterior (abertura da tomada de decisão), bem como a negociação a portas fechadas entre especialistas e tomadores de decisão deve ser transferida para um diálogo entre uma variedade de agentes (criação de um caráter público parcial. Por fim, deve-se buscar um ideal onde as normas do processo devem ser amplamente negociadas entre os atores (auto-legislação e auto-obrigação).

As instituições que suportem esse tipo de atividade devem ultrapassar as velhas estruturas de não-ambigüidades, estabelecendo novas estruturas e procedimentos, destruindo os monopólios e delegando o poder. Não será a solução final para o consenso, mas estimulará a prevenção e a precaução e atuará em direção à uma simetria de sacrifícios inevitáveis.

Pelo dito, vê-se que, em relação à tecnologia, há necessidade de criação uma “Câmara Superior” ou “Tribunal de Tecnologia” que possa garantir a divisão de poderes entre o seu desenvolvimento e implementação, em razão da própria necessidade de articulação da nova política.

Vê-se, por tudo quanto já mencionado, que a modernização reflexiva significa, acima de tudo, uma “reforma da racionalidade”, que permita lidar com a ambivalência em uma modernidade que está abolindo suas próprias categorias de ordenação. Nessa modernidade, tudo é um pouco político e, portanto, nada mais é político.

Há que se estabelecer, então, uma política da política. Sabe-se que a política oficial opera no sistema de regras da sociedade industrial e do Estado-nação. Já a política que altera regras, a subpolítica, no sentido da política subsistêmica autônoma, almeja a citada “política da política”. Assim, a distinção entre política oficial e subpolítica é a distinção entre política “simples”, dirigida por regras, e política reflexiva, que altera as regras. Ocorre dessa maneira porque iniciamos uma nova invenção do político, onde a estrutura do Estado-nação e o sistema de regras não é o ponto de partida de o novo território do político, do geopolítico ou da sociedade de risco global. Isso faz com que as instituições atuais sejam incapazes de alcançar os objetivos traçados. Devemos exercitar a luta por espaços, formas e fóruns de formatação de estilo e de estrutura, dentro e fora do sistema político.

Essa percepção não leva apenas à redefinição das áreas de responsabilidade do Estado, mas antes uma questão de revisão de tarefas supostamente “eternas” e de instituições que duram mais que sua utilidade. Nesse contexto, a política reflexiva não significa apenas invenção. Significa o desaparecimento do político.

O passo é necessário porque se as instituições alternativas, que possam permitir essa atuação na subpolítica, não estiverem disponíveis nessa transição, começará uma fuga, em razão da necessidade de um ponto referencial na sociedade, para a simulação de antigas certezas, fadadas ao insucesso.

A nova ordem, portanto, deve ser criada, forjada e formada. Somente a rede permite a formação de poder ou de poder de oposição.

Esse contexto de novas estruturas, individualização e ambivalência levam a uma série de perguntas: quem sou eu? O que eu quero? Para onde estou indo? Ou seja, os pecados originais do individualismo levam a uma nova identidade do político: a política de vida-e-morte, patrocinada pelos conhecimentos técnicos que estabelecerão uma surgente política genética, estabelecendo antagonismos.

Exemplarmente, temos que uma determinada área do conhecimento científico, que busca a clareza e certeza de suas afirmações, ao aceitar a profundidade e contradições da construção teórica, chegará paradoxalmente à conclusão de impossibilidade de se alcançar tal meta científica.

Estes antagonismos vão, dessa maneira, causar impactos nos guardiães da racionalidade, os especialistas, já que se questiona o quanto as atividades alternativas afeta e até irrompe as fileiras da racionalidade especializada.

Esse contexto, vinculado a uma depressão profunda, aliada ao desemprego em massa, mina a autoconfiança do povo e sugestiona o ressurgimento de antigas estruturas da industrialização, incompatíveis com a ambivalência da modernização reflexiva.

Um comentário:

Anônimo disse...

Excelente!

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