19 de fev de 2007

Modernidade Líquida - Posfácio

Posfácio – Escrever; Escrever Sociologia

Lembrando Beck: se a sociologia é a resposta, qual é a pergunta? A resposta desse questionamento passa pela necessidade de articulação de uma democracia que ultrapasse a “especialistocracia”. Ainda que tenhamos hoje ampla liberdade formal para falar, isso não é insuficiente para realização daquela democratização, pois ela depende da capacitação e auto-afirmação dos indivíduos para decidirem se querem o tipo de vida que lhes é apresentada como fatalidade. A ausência de “significados absolutos”, de forma a possibilitar a busca de uma conformação social móvel, é condição para construção de uma sociedade verdadeiramente autônoma e indivíduos verdadeiramente livres. Aquele que nega a possibilidade de alteração da ordem social, responsável pela infelicidade das pessoas, é culpado de imoralidade. Não enxergar isso, suprimindo a possibilidade de contingência, é fator determinante para a perpetuação da situação. A revelação, é certo, não significa sua utilização imediata, mas certamente é o começo (e não o fim) da guerra contra a miséria humana.

Modernidade Líquida - Cap.5

5 Comunidade

Os elementos que unem os membros de uma coletividade estão cada vez menos fortes. Muitas pessoas buscam, portanto, resgatar um sentimento já perdido de “comunidade”, que costuma ser negada pelos liberais. Contudo, se uma pretensa comunidade tem que apelar aos próprios membros para sua manutenção, significa que ela é mais um projeto que uma realidade, pois só passa a existir após uma decisão individual e, dessa maneira, pode ser considerada uma comunidade postulada. O processo indutor desse fenômeno é a falta de segurança, e o encontro de um porto seguro nas turbulentas águas das constantes, confusas e imprevistas mudanças é uma das promessas do comunitarismo. Porém, esse mundo torna o outro hostil e irrelevante, e falar em uma “comunidade includente” seria uma contradição em termos. Por outro lado, como disse Hobsbawm, exatamente em um passado quando a comunidade entrou em colapso inventou-se a identidade. O Estado-nação teve sucesso justamente pela supressão das comunidades, buscando criar cultura, língua e história unificadas, em detrimento de tradições comunitárias, o que foi possível pela imposição de língua oficial, currículos escolares e sistema legal unificado. Passamos a ter uma noção de “terra natal”, uma percepção que pode ser dividida como nacionalismo e patriotismo, esse último tendo um sentido pretensamente mais positivo. Porém, tal noção pode levar a uma duas estratégias de relacionamento com o “outro”: no patriotismo, a abordagem antropofágica, o que significa “devorar” a distintividade do estrangeiro; e, no caso do nacionalismo, utiliza-se a estratégia antropoêmica, que resulta em metaforicamente “vomitar” os que não estão “aptos a ser nós”, isolando-os nos guetos e nos muros das proibições culturais, ou ainda por meio das deportações e limpezas étnicas. Nesse processo, o método distintivo entre nós e eles é apenas a configuração de uma diferença, geralmente derivativa e menor, que acaba sobrepondo-se às semelhanças. Em outra linha, e em contraste àquele patriotismo e nacionalismo, evidencia-se que a unidade alcançada é muito mais promissora, por ser constituída pelo confronto, debate, negociação e compromisso entre diversos valores e preferências de auto-identificação, sendo a única variante de unidade compatível com a modernidade líquida. Do contrário, o natural impulso de retirar-se da arriscada complexidade para o abrigo da uniformidade, um verdadeiro sonho de pureza, acaba prevalecendo. Esse impulso afasta os perigos próximos ao corpo ameaçado, buscando tornar o “de fora” parecido com o “de dentro” e refazer o “lá fora” à semelhança do “aqui dentro”, criando uma sede por segurança que não pode ser saciada, pois deixa intactas as verdadeiras fontes da incerteza e da falta de garantias. Assim, entre liberdade e segurança, o comunitarismo aposta na última, desconhecendo que a liberdade e a segurança podem e devem crescer conjuntamente. Faz-se essa escolha pois as amizades, o trabalho e a própria família são fluidos demais para serem referências confiáveis. Nesse contexto, tendo em perspectiva que é a sociedade quem nos permite experimentar satisfações que não sejam puramente efêmeras e que o comunitarismo enfraquece essa construção, o corpo passa a ser o único referencial de continuidade a “longo prazo”, pois dificilmente algo ultrapassará os limites da mortalidade corporal. O próprio Estado renuncia o papel de responsabilidade pela certeza, segurança e garantia, em uma mudança de grande importância para os rumos da humanidade. O casamento entre Estado e Nação claramente caminha para o fim e para a constituição de um novo arranjo de “viver juntos”, ainda que haja pouca esperança no resgate daqueles serviços de garantias, em razão da corrosão da política diante dos poderes extraterritoriais. Contudo, diante da falta de resistência soberana dos Estados àquela interferência indevida, a construção de uma ordem supranacional não passa de uma especulação que hoje é até mesmo improvável. Isso traz preocupação em relação à disseminação do que Bourdieu chamou de “política da precarização”. Essa instabilidade poderá ser compensada pelo surgimento de “comunidades explosivas”, que precisam de ameaças comuns e inimigos a serem perseguidos e mutilados, para que cada indivíduo seja cúmplice em uma eventual derrota. A mistura dessa sociabilidade explosiva com aspirações territoriais e estratégias “fágicas” e “êmicas” resulta em mutações monstruosas, apresentando-se totalmente descontextualizadas da modernidade fluida, com a qual não compartilha código. Em outro fenômeno decorrente dessa instabilidade e precariedade é a constituição das chamadas “cloakroom communities”. Elas se caracterizam por necessitarem de um espetáculo que substitua a “causa comum” em torno do qual os indivíduos se reúnem por certo momento, colocando temporariamente outros interesses divergentes de lado. Contudo, têm o efeito colateral de impedir a condensação de comunidades genuínas e duradouras, dessa maneira reforçando e perpetuando a solidão que caracteriza o novo tempo.

Modernidade Líquida - Cap. 4

4 Trabalho

Havia antes uma fé no progresso da história. Uma confiança de uma marcha em direção a uma vida melhor. Hoje, porém, há uma percepção de não existe uma “agência” capaz de mover o mundo pra frente, e o progresso vem sendo questionado junto com sua soberania, credibilidade e confiabilidade, demonstrando a fadiga do Estado. Ainda que as instituições da modernidade sólida permaneçam, o poder é tirado da política, pois flui em redes deslocalizadas. No capitalismo pesado, o trabalho, era visto como meio de aumento de riqueza e valorizado pela sua contribuição à manutenção da ordem e ordenação do destino humano. Porém agora, no mundo humano labiríntico, o trabalho já não tem aquele significado, constituindo apenas um episódio isolado como o resto da vida, sendo os atos de trabalho mais parecidos como estratégias de um jogador, que estabelece objetivos de curto prazo. O trabalho perde sua centralidade, esperando-se que seja satisfatório por si mesmo e não pelos resultados para a humanidade, para a nação ou futuras gerações. Difere-se da modernidade sólida, na qual havia a pretensão de se ordenar a rotina de forma a evitar o acidente e a contingência, fazendo com que tudo se aperfeiçoasse e se tornasse mais útil e eficaz. Naquele mundo, o uso do nome de Ford era apropriado, principalmente pela intenção de se atar o capital ao trabalho em um casamento divino: os trabalhadores precisavam do emprego; o capital dependia dos empregados para produção e crescimento. Isso mudou, e a nova mentalidade é de casamentos de curto prazo, onde “flexibilidade” é slogan principal. Ainda que antes também houvesse incertezas, hoje elas são de natureza diferente e apontam para um fenômeno novo de “individualização” das biografias, que divide e turva a idéia de um “interesse comum”, o qual perde seu valor prático. Em um sentido mais amplo, a liberdade do capital resulta em efeitos para a política, pois as instituições locais competem com a velocidade quase instantânea dos atores capitalistas, em uma batalha que não podem vencer. Os países evitam, assim, qualquer movimento que denote falta de hospitalidade aos interesses do capital, o que em geral significa menos impostos e regras, visando à criação de um mercado de trabalho flexível de trabalho. Esse contexto contrasta com a era anterior, quando o preceito fundamental era o adiamento da satisfação, a procrastinação. Foi o controle do desejo que possibilitou o crescimento e desenvolvimento da sociedade moderna. A idéia era de que quanto maior a auto-restrição, maiores seriam os prêmios. Hoje, o que se busca é a satisfação imediata do desejo, ao mesmo tempo em que sua satisfação encurta a duração. Contudo, vivemos em um mundo repleto de insegurança e incerteza, combinado com a falta de garantias. Ninguém está a salvo, por exemplo, da nova rodada de “downsizing” ou “racionalização” dos serviços. Como não temos segurança de longo prazo, faz sentido a satisfação instantânea, pois seu adiamento perdeu seu fascínio. A precariedade do mercado de trabalho transborda para e é reforçada pela política da vida. Laços e parcerias são, dessa maneira, vistos como produtos de consumo. Se a característica mais importante da modernidade era a confiança das sociedades em si mesmas e nas instituições, agora o seu colapso enfraquece o engajamento político e a ação coletiva, conforme já demonstrou Pierre Bourdieu. O Estado, dessa forma, deixa de exercer seu poder de controle na rede e as instituições políticas restam irreversivelmente enfraquecidas.

18 de fev de 2007

Modernidade Líquida - Cap. 3

3 Tempo/Espaço

Comunidades hoje são definidas pela defesa e controle de suas fronteiras e não mais por seu conteúdo, mantendo a separação nos lugares de convivência. Por outro lado, a vida na cidade requer a habilidade da “civilidade”, que é a atividade das pessoas estarem juntas, em um ato de engajamento e participação nos espaços públicos, uma tarefa compartilhada para o bem comum sem a obrigação de retirada da máscara social ou de expressar sentimentos e angústias. Hoje diversos espaços cumprem a função, porém sem se aproximarem do modelo ideal. Os centros de consumo, por exemplo, referem-se a uma tarefa individual, constituindo-se lugares onde as pessoas são chamadas a descartar seus laços, aonde elas não vão para socializar-se, pois carregam consigo as companhias que querem gozar. Cria-se um sentimento de conforto, com a suposição de que “somos todos iguais” e de que “temos a mesma intenção”, como se fizéssemos parte de uma comunidade, porém evitando que possamos nos confrontar com a diferença, a alteridade do outro, um modo diferente de viver. Esse processo de afastar o diferente, de evitar a chance de encontrarmos estranhos, segundo Lévi-Strauss, utiliza duas estratégias: antropofágica e antropoêmica; a primeira visando à aniquilação dos “outro” e a segunda a suspensão de sua alteridade. Podem-se acrescer ainda os não-lugares e os espaços vazios. Os primeiros possuem a característica pública, porém claramente não-civis, como o La Défense, em Paris, cuja estrutura faz com que os estranhos tenham presença meramente física, dispensando o domínio da civilidade. Espaços vazios são aqueles em que, por se constituírem áreas habitadas por pessoas totalmente “outras”, são apagadas de nossos mapas mentais, cuja exclusão faz os demais lugares se encherem de significado. Esse afastamento da arte da civilidade, da capacidade de interagir com o estranho sem que a diferença seja utilizada de forma desconfortável, é a característica dessas categorias. Isso porque essa capacidade de interação com o “diferente” não se obtém facilmente, senão com estudo e exercício, enquanto a incapacidade de enfrentar a pluralidade se autoperpetua e se reforça. A principal forma de se garantir a fuga para um “nicho seguro” quando “ninguém sabe falar com ninguém” é a origem étnica, que tem ares de “natural”, onde “todos são parecidos com todos” e a “fala é fácil”. Assim, a política passa a ser uma valorização da “identidade” em detrimento dos “interesses comuns”, importando o que se é e não o que se faz. É a patologia do espaço público e conseqüentemente da política, com o esvaziamento do diálogo e da negociação. A modernidade é a história do tempo, é o tempo em que o tempo tem uma história. Antes, a relação das pessoas com o tempo e o espaço se dava nos limites do wetware - humanos, bois, cavalos - e o uso de qualquer dessas alternativas não fazia uma diferença substancial, tornando todos mais ou menos semelhantes. Mais à frente, a modernidade do hardware, onde homens passaram a construir novas formas de transporte, permitiu a manipulação do tempo, tornando os humanos diferentes, pois agora alguns podiam chegar onde queriam bem antes dos outros. Nessa era da modernidade pesada, o poder baseava-se na territorialidade e no princípio do “quanto maior, melhor” – maiores fábricas, imóveis, países. A rotina normatizada, como meio de controle, criada para o trabalho, o prendia ao solo. Porém, da mesma forma, os prédios e maquinários também acorrentavam o capital e, ainda que pretendesse ser o controlador, estava por esse fato limitado. Contudo, no capitalismo de “software” de hoje, nessa nova modernidade “leve”, o espaço pode ser atravessado em “tempo nenhum”, cancelando a diferença do longe e do perto, desvalorizando o espaço e desprivilegiando qualquer lugar em específico. Quem tem o domínio desse novo tempo e se movem com rapidez, mandam, e os que permanecem presos ao lugar, obedecem. Assim, o capital finalmente de desvinculou das responsabilidades com um lugar, podendo, agora descorporificado, viajar esperançoso e confiante, enquanto o trabalho, como antes, é irrealizável isoladamente. Entre as empresas, as fusões e a redução do tamanho passaram a ser a regra, fazendo com que cada um lute pela sobrevivência, tornando desnecessária qualquer supervisão, pois o receio de ser ultrapassado é o suficiente para manter a disciplina. O capital, assim, busca a gratificação ao mesmo tempo em que evita as conseqüências de suas ações. Além disso, a cultura de nossos tempos desconsidera o passado e não acredita no futuro, dificultando as pontes culturais e morais entre transitoriedade e durabilidade e impedindo a assunção de responsabilidades de longo prazo. Essa inflexão do capitalismo pesado ao leve, da modernidade sólida para a fluida, pode ser ainda mais radical que o próprio advento da modernidade e do capitalismo.

17 de fev de 2007

Modernidade Líquida - Cap. 2

2 Individualidade

“Admirável Mundo Novo” e “1984” foram duas obras características da modernidade sólida, sendo que o pesadelo que as ligava era a previsão de “ausência do controle das nossas próprias vidas”. Os autores não podiam imaginar um mundo sem mesas de controle. Naquela primeira modernidade, contexto social da elaboração dos livros, o mundo era dominado pelos administradores das empresas capitalistas, cuja visão alimentava a formação do mundo e do discurso dominante, cuja ordem e regulação se sobrepunham à totalidade da experiência vivida. Naquele estágio, o capital estava fixado ao solo tanto quanto os seus trabalhadores. Todavia, hoje, na modernidade líquida, ele pode saltar a qualquer ponto do caminho, está livre do território, permanecendo o trabalho, contudo, tão imobilizado quanto antes. Weber previu que haveria o triunfo da “racionalidade instrumental”, o quer tornaria as pessoas obcecadas com os meios. Entretanto, tal previsão não se confirmou, porque hoje as angústias estão mais voltadas, na verdade, às escolhas de objetivos. Essas escolhas são dificultadas pelo fato de que o mundo agora possui um gigantesco universo de possibilidades, o que, apesar de ser divertido, não permite saber se a decisão foi correta ou equivocada, em uma bênção mista de alegria e dúvida. Aquele capitalismo pesado, ao estilo fordista, era determinado pelas autoridades. O leve, por sua vez, não aboliu as autoridades, mas permitiu a co-existência de tantas que elas se auto-anulam. Assim, programas de TV trazem a público assuntos que antes eram ocultos nas vidas privadas, tornam o indizível dizível, em um ritual de exorcismo que permite agora falar de coisas que estavam destinadas ao sofrimento silencioso. Questões desse tipo têm levado ao desaparecimento da “política como a conhecemos”, pois problemas privados, ainda que apresentados publicamente, não deixam de ser privados, ao mesmo tempo em que expulsa questões públicas verdadeiras. Tal fenômeno ocorre porque o que buscamos hoje são exemplos e não líderes. Assim agimos na esperança de que o conhecimento das experiências de outros indivíduos nos auxilie na tarefa solitária de autoconstrução. O próprio caminho, e não o prêmio ao fim da caminhada, passa a ser o objetivo, situação cujo arquétipo é a atividade de comprar, o código que povoa a “política-vida”. Precisamos ser mais competentes, e cada vez que o fazemos vamos “às compras”, cuja lista é imensa, envolvendo-nos em torno do papel de “consumidores” e não de “produtores”. Como produtores, na modernidade pesada, precisávamos apenas estar “conforme” às normas, no mesmo nível de nossos “vizinhos”. Como consumidores, somos orientados pelos desejos e quereres voláteis e ninguém é referência para o nosso sucesso. Passamos a ser guiados por um ideal de aptidão, quando antes o padrão era a saúde, e nosso corpo agora é uma “fortaleza sitiada”, o que nos leva a uma obsessão de comprar nossa defesa e não à abstinência e renúncia. Além disso, tentamos construir e moldar nossa vida como uma “obra de arte”, tarefa que busca a criação de uma “identidade”. A identidade (dos outros), à distância, sempre parece sólida, mas a nossa, experimentada, vivida, somente se mantém com o adesivo da fantasia. Em razão dessa instabilidade das identidades, o caminho para essa realização é determinada pela nossa capacidade de “ir às compras”, de ter acesso às infinitas escolhas. A partilha coletiva dessa experiência absolutamente individual passa a ser condição necessária da vida. É uma tarefa em certo sentido coletiva, mas que deve ser realizada por cada um em condições diferentes, induzindo à competição e diminuindo a capacidade de cooperação e solidariedade. Mudamos, assim, de uma sociedade do Panóptico para o Sinóptico, onde os espetáculos substituem a supervisão, sem perder o poder de disciplina. Nessa sociedade, os despossuídos não têm mais para aonde desviar os olhos da liberdade tentadora das telas, fazendo com que quanto mais escolhas tenham os ricos, menos suportável se torna a vida.

14 de fev de 2007

Modernidade Líquida - Cap. 1

1 Emancipação

Nas décadas gloriosas após a Segunda Grande Guerra, Marcuse se questionava quanto à ausência de uma base de massas desejosas de libertação. É que as pessoas sentem-se livres quando há um equilíbrio entre imaginação, desejos e capacidade de agir, e quando isso ocorre, “libertação” é um slogan sem sentido. Os filósofos então se atormentavam com a questão de que as pessoas talvez simplesmente não quisessem ser livres. O questionamento se a libertação é uma benção ou maldição pode ser respondido tanto como um desvelo do homem comum pela liberdade, por ser enganado ou por não querer assumir responsabilidades, quanto pela aceitação de que talvez a liberdade não traga tantos benefícios, pois não seria garantia de felicidade. Essa última análise deriva da visão hobbesiana do “homem à solta”, idéia reforçada por Durkheim, que afirmou que a submissão do indivíduo à sociedade é uma espécie de “dependência libertadora”, pois a ausência de normas criaria um estado de incertezas que faria da vida um inferno. Porém, hoje o indivíduo já ganhou toda liberdade que poderia esperar, pois somos seres reflexivos, engajados na “política-vida”, porém sem que essa reflexão alcance os verdadeiros mecanismos que conectam e determinam nossos movimentos, impedindo uma autêntica auto-afirmação. Uma visão crítica atualizada dessa situação deve avançar em relação à teoria crítica clássica, que estava embutida em uma modernidade sólida e tendente ao totalitarismo. Aquela modernidade pesada, identificada com o sistema de controle da fábrica fordista, reduzia a atividade humana a movimentos mecânicos e repetitivos, conduzida aos moldes do Panóptico. Nesse contexto, a teoria crítica buscava a liberdade de escolha em ser e permanecer diferente, sem pretender ultrapassar esse propósito. Afastados os demônios do totalitarismo, muitos se apressaram em anunciar o fim da modernidade, esquecendo-se que aquela sociedade diagnosticada pela teoria crítica era apenas uma das formas que a sociedade moderna assumiu. Nesse sentido, a sociedade de hoje é tão moderna quanto a de um século atrás, pois continua na busca insaciável por “limpar o lugar” em nome de um “novo e aperfeiçoado” projeto. Entretanto diferencia-se por duas características específicas: o colapso da ilusão moderna de que há um telos, um tipo de sociedade justa ideal alcançável; e a desregulamentação e privatização de tarefas e deveres de modernização. Nesse novo mundo, indivíduos encontram apenas outros indivíduos, assumindo total responsabilidade por suas decisões, o quem vem a ser a marca registrada da nova modernidade. Essa individualização significa que a “identidade” é algo construído, uma tarefa cujas conseqüências são de responsabilidade de cada um. Na modernidade sólida, a auto-identificação se dava por meio da conformação a certa classe, o que favorecia o coletivismo, pois os elementos em comum projetavam-se sobre a gama de escolhas do indivíduo. Agora, a individualização não é uma escolha e, enquanto os riscos continuam a ser socialmente produzido, seu enfrentamento é fragmentado, criando um abismo entre a individualidade como fatalidade e como verdadeira capacidade de auto-afirmação. A sensação de impotência, ainda que com liberdade, induz à tentativa de resgate de um passado de marcha ombro a ombro, mas que hoje já não tem função, porque as aflições agora são não-aditivas, não podendo ser condensadas em interesses compartilhados. Assim, o indivíduo passa a ser o pior inimigo do cidadão, porque enquanto o cidadão deve buscar a causa e o bem comum de uma sociedade justa, vê-se que tal objetivo é incompatível com um mundo onde os benefícios do trabalho conjunto são inferiores à busca individual, levando à corrosão e desintegração da cidadania. Esse processo faz com que o espaço público seja preenchido por preocupações dos próprios indivíduos, transformando o interesse público apenas na curiosidade sobre as vidas de pessoas públicas. Por outro lado, há um crescente déficit entre a condição de indivíduos de jure e de facto, impedindo que o mesmo controle seu destino, situação que somente pode ser superada por meio do resgate da cidadania e da atuação na Política com P maiúsculo. É que, ao revés de haver uma colonização do público pelo privado, conforme preocupações da teoria crítica clássica, o que vem ocorrendo é o contrário, sendo o espaço público o lugar onde se faz a confissão de segredos privado e onde há cada vez menos questões verdadeiramente públicas. Enquanto isso, o verdadeiro poder passa ao largo dos governos e parlamentos, situando-se nas redes eletrônicas. É essa a situação posta à teoria crítica, que deve auxiliar no redesenho e repovoamento da quase vazia ágora, permitindo o reaprendizado pelos indivíduos das capacidades perdidas da cidadania. Todavia, com exercer essa tarefa de maneira a tornar-se compreensível sem deturpar seu conteúdo? O problema passa pela escolha de um envolvimento político ou o radical distanciamento da prática política. A visão da filosofia como um objeto de ação dos filósofos, sem intercâmbio com o mundo real, não parece adequada, e o desengajamento político cheira a traição. Tal ponte política deve ser enfrentada, ainda que com os riscos inerentes ao processo, buscando-se suavizar a passagem da filosofia para o mundo. De qualquer forma, sendo a política o elo entre os valores universais e a realidade social, a relação com o Estado passa a ser um dilema de formação. Nesse contexto, a teoria crítica clássica está a ponto de perder seu objeto, o que não significa a perda de seu significado, pois a emancipação ainda está à espera, o que passa pelo abismo entre a individualidade de jure e de facto. Aquela teoria esperava que o perigo fosse a colonização do privado pelo público, descuidando da possibilidade da invasão inversa. Esse processo imprevisto leva ao desaparecimento da política e à impotência da liberdade individual, que hoje precisa de mais e não menos da “esfera pública” e do “poder público”.

Modernidade Líquida - Zygmunt Bauman

Prefácio

Ser leve e líquido

A nova, de diversas formas, modernidade tem semelhança com os fluidos. Ela não se atém a qualquer forma e está sempre pronta e propensa a mudar. Apesar de a modernidade, desde seu começo, constituiu-se em um processo liquefação das instituições, antes estava mais vinculada ao repúdio da tradição, eliminando as obrigações sem relevância que dificultavam o cálculo racional. Essa característica da primeira modernidade possibilitou a dominação da racionalidade instrumental e o papel dominante da economia na constituição de uma nova ordem social. Essa idéia de construção de uma nova e melhor ordem já não está no horizonte da ação política. Aqueles poderes de liquefação, antes no nível marco do sistema e da política, agora passaram ao nível micro da sociedade e da política da vida. Nesse contexto, a flexibilidade que o tempo adquiriu e o acesso a rápida mobilidade transformaram-se em ferramentas de dominação e poder, o qual se tornou extraterritorial. É o fim do secular Panóptico e sua era de engajamento mútuo entre capital e trabalho, permitindo o surgimento de “senhores ausentes”, que se movem leves e confiantes da desnecessidade de se ocupar com a responsabilidade de administração, gerenciamento e bem-estar. Hoje, são os poderosos que evitam o durável, enquanto a base da pirâmide luta por suas frágeis e transitórias posses. Para que o cenário permaneça, o mundo deve estar livre de barreiras e fronteiras.

7 de fev de 2007

A Sociedade em Rede - Conclusão

Conclusão: A Sociedade em Rede

As redes hoje estruturam a nova organização social e sua lógica altera a operação e os resultados da produção, do poder e da cultura. Essas redes são estruturas com capacidade ilimitada de expansão, tendo por exigência apenas a possibilidade dos nós compartilharem códigos de comunicação, fazendo com que os seus detentores assumam o poder, pois é por meio deles, os códigos compartilhados, que as sociedades se orientam. A conseqüência é a formação das relações sociais, em todo planeta, em torno do modo capitalista de produção, que, todavia, é diferente de seus predecessores por ser global e estar estruturado em uma rede de fluxos financeiros, cuja interação com as empresas constitui-se a base do processo de acumulação de riqueza. Além disso, esses fluxos não seguem simplesmente a lei da oferta e da procura, pois se submetem a turbulências imprevisíveis e incalculáveis, induzidas pela psicologia tanto quanto pelos processos econômicos. Assim, uma meta-rede se forma por interesses capitalistas globais e por setores que compartilham valores, porém não sem conflito com os trabalhadores que perdem sua identidade, suas condições de trabalho e seus interesses em razão da crescente individualização, diferenciação e segmentação do mercado laboral, com conseqüente desagregação da mão-de-obra em escala global. Por outro lado, a cultura torna-se deslocalizada e intemporal, mediada por sistemas eletrônicos interativos incluídos em um hipertexto audiovisual digitalizado, enquanto a política é modelada pela mídia eletrônica. Por todas essas razões, as bases significativas da sociedade, tempo (intemporal) e espaço (de fluxos), são transformadas, representando uma alteração qualitativa da experiência humana. Contudo, o momento não é obrigatoriamente animador, já que estamos finalmente sozinhos em nosso mundo de humanos e, olhando em nosso espelho, talvez não gostemos da imagem.

A Sociedade em Rede - Cap. 7

Cap. 7 – Tempo Intemporal

As sociedades contemporâneas permanecem dominadas pelo conceito cronológico do tempo, um tempo linear, irreversível, mensurável e previsível, mas que agora passa por uma relativização e fragmentação na sociedade em rede, em perceptível aceleração e compressão do tempo em todos os domínios da atividade humana. A situação mais evidente desse fenômeno é a circulação global de capital, onde as transações são praticamente instantâneas. Essa invalidação e manipulação do tempo pelos mercados globais é a fonte principal das crises financeiras características da década de 1990. Todavia, o controle do tempo também se evidencia na empresa em rede, uma vez que o mesmo é gerenciado com um recurso não-linear, flexibilizando o tempo como fator diferencial em relação à temporalidade de outras empresas, redes, processos ou produtos. Tal fenômeno também ocorre na estrutura laboral, que encolhe em número de horas por trabalhador e altera a forma de sua prestação. Há uma diversificação do tempo e horários de trabalho, de acordo com as empresas, redes, empregos, ocupações e características dos trabalhadores, de maneira que há uma tendência de que o tempo de serviço perca sua centralidade ao longo do ciclo de vida, havendo neste um processo de ruptura do ritmo biológico e social. Há crescentes possibilidades de controle da reprodução e média de vida dos indivíduos, a exemplo do fato de que agora a velhice possui condições sociais e estágios biológicos de natureza diversificadíssimas, a depender do capital social, cultural e relacional acumulado durante a vida. Na outra ponta, a reprodução é cada vez mais controlada, separando a reprodução biológica da escolha social possível pelas novas tecnologias. Esses elementos demonstram que se caminha para eliminação do fundamento biológico no ciclo de via, tendo por conseqüência a invalidação do tempo biológico humano, que é substituído por um momento de decisão existencial. Além disso, com o avanço das ciências médicas e o desvendar dos segredos da vida, permitimo-nos a ousadia de desafiar e negar a morte, representada tanto pela indústria da “vida saudável” com a boa-fé incansável dos médicos que tentam, tanto quanto possível, afastar o fim inevitável do ser humano. Mantendo a crença por tempo suficiente, criamos a eternidade em nossa existência, exceto naquele momento que somos rodeados pela luz.

A associação de morte, guerra e tempo passa igualmente por modificação em razão do novo paradigma tecnológico, apresentando-se em conflitos instantâneos cuja temporalidade tecnologicamente induzida é característica das sociedades informacionais, em uma nova forma de dominação do sistema. São guerras que envolvem poucos civis, de curta duração e cirúrgica. Diferem largamente de diversos conflitos violentos e intermináveis, o que demonstra que a nova temporalidade exclui países e acontecimentos não centrais da lógica dominante emergente.

A cultura da virtualidade real, mediada por um sistema multimídia, também influi a percepção do tempo em razão da sua característica simultaneidade e intemporalidade. Estes atributos são representados pelo hipertexto de multimídia, que modela as mentes e memórias das crianças que crescem neste novo contexto social. Por este meio, a ordem dos eventos perde o ritmo cronológico, organizando-se em seqüências temporais condicionadas à sua utilização. Eis a razão pela qual se constitui, ao mesmo tempo, uma cultura do eterno e do efêmero, cuja intemporalidade são expressões recorrentes tanto nos videoclipes como nos sons do espiritualismo eletrônico. Essa intemporalidade acontece quando o paradigma informacional e a sociedade em rede determinam uma desordem sistêmica na ordem seqüencial de fenômenos ocorridos em um dado contexto. A confusão surge porque o tempo intemporal pertence ao espaço de fluxos, enquanto o tempo biológico caracteriza os lugares, ou seja, fluxos induzem tempo intemporal enquanto lugares estão presos ao tempo. O que fica claro, em síntese, é que há uma diferenciação conflituosa do tempo entre interesses sociais opostos sobre a seqüência dos fenômenos, o que equivale em uma luta pelo poder.

A Sociedade em Rede - Cap. 6

Cap. 6 – O Espaço de Fluxos

Espaço e tempo, que possuem um significado social, são as principais dimensões da vida humana, sendo que o espaço organiza o tempo na sociedade. Ambos estão se transformando por meio do novo paradigma da informação e novos processos sociais. A economia, expandindo-se para incorporação de novos mercados, necessita de serviços avançados em novas unidades que aderem ao sistema, constituindo o fenômeno da cidade global, que não se reduz a alguns núcleos urbanos no topo da hierarquia, apesar de ficar dependente da aglomeração em alguns centros metropolitanos. A rede é extensa e complexa, porém a execução dos serviços avançados fica dependente do fácil acesso a trabalhadores e fornecedores, quando e quantas vezes forem necessárias em cada situação específica, demonstrando que a cidade global não é um lugar, mas um processo. É o que permitiu a criação de um novo espaço industrial, que tem a capacidade organizacional e tecnológica para estabelecer a produção por unidades separadas fisicamente, mas ligadas pela telecomunicação. Esse processo precisa de uma relação de produção em que a cultura compartilhada gere uma sinergia, decorrente da interação dos elementos do meio, que resulte em inovações tecnológicas para todo o sistema. Eis porque as grandes metrópoles do mundo continuam a acumular fatores que induzem a inovação, não obstante parecer ser possível que, mediante as condições apropriadas, essa tendência possa ser alterada. Essas condições referem-se à concentração dos ingredientes que permitam a citada sinergia, em uma articulação entre o local e global. De toda forma, a descontinuidade geográfica é característica dessa nova localização industrial, organizada por fluxos de informações, paradoxalmente reunindo e separando seus componentes territoriais. A nova condição tecnológica também permite a dissociação da proximidade espacial com o trabalho, as compras, o entretenimento e os serviços públicos, em semelhante processo de dispersão e concentração espacial simultâneas, tendo a casa como seu centro. Ainda que não representando o fim das cidades, tal fato tem real impacto no espaço urbano. Portanto, a cidade informacional, que não é uma forma, mas um processo, decorrente da nova sociedade em rede baseada no conhecimento, caracteriza-se pelo predomínio do espaço de fluxos, representado principalmente pelas megacidades, que são seus pontos nodais. Para melhor compreensão, é de se dizer que o espaço não é uma cópia da sociedade, é a sociedade, sendo conceituado como o suporte material de práticas de tempo compartilhado. Tradicionalmente vinculado à contigüidade, essa não é mais uma característica sua na era da informação, pois há uma nova forma espacial das práticas sociais. É o já citado espaço de fluxos, que se constitui na organização das práticas sociais de tempo compartilhado por meio de fluxos, considerando-se estes como seqüências de interação entre posições fisicamente desarticuladas. O espaço de fluxos possui como suporte uma camada microeletrônica, que oferece a base material das relações sociais simultâneas, outra camada constituída por seus nós de comunicação, que são centros localizados de funções estratégicas, e por fim uma camada constituída pela organização espacial das elites gerenciais dominantes, que determinam a direção em que o espaço é articulado.

Sendo correta essa percepção, de que a forma espacial dominante é o espaço de fluxos, isto deve se apresentar na arquitetura, já que sempre houve uma ligação entre o que a sociedade dizia e o que os arquitetos queriam dizer. Porém, isto não é mais correto, pois a arquitetura pós-moderna declara o fim dos sistemas de significado, tendo por ideologia dominante o fim da história e suplantação de lugares no espaço de fluxos. Utilizam formas neutras que, ao não dizerem nada, comparam a experiência com a solidão do espaço de fluxos.

Em outra perspectiva, ainda que a maioria das pessoas tenha seu espaço organizado em lugares, o poder está organizado no espaço de fluxos, estabelecendo uma esquizofrenia entre as duas lógicas, o que pode romper os canais de comunicação na sociedade. Para que isso não ocorra, devem-se construir pontes culturais, políticas e físicas entre os dois espaços, evitando a estruturação da vida em universos paralelos do hiperespaço social.

A Sociedade em Rede - Cap. 5

Cap. 5 – Cultura da Virtualidade Real: a integração da comunicação eletrônica, o fim da audiência de massa e o surgimento de redes interativas

Surge neste início de século uma nova forma de interação entre os dois lados do cérebro, havendo uma mudança fundamental no caráter da nossa comunicação, que agora ocorre por meio de texto, imagens e sons em um mesmo sistema. Como se sabe, a comunicação molda a cultura porque nós não vemos a “realidade”, mas o que “ela” significa em nossa linguagem. Portanto, a mudança da comunicação para uma rede global eletrônica mudará também nossa cultura, fazendo surgir a “cultura da virtualidade real”. Observando a evolução dessas mudanças, lembra-se que o sistema de comunicação anterior, baseado na mente tipográfica e pela ordem do alfabeto, já havia sido abalado pela televisão, que hoje modela a linguagem de comunicação na sociedade. A escrita favorece uma exposição sistemática, enquanto a TV é informal, sendo hoje o palco de todos os processos que se pretende comunicar à sociedade, seja na política, nos negócios, no esporte ou na arte. Nesse mundo binário, ou se está dentro o se está fora, sem meio termo. Todavia, as informações transmitidas pela TV são assimiladas pelas pessoas, que interagem com seu conteúdo, o faz parecer correto inexistir uma cultura de massa, já que cada local ou cultura modifica a significação final da mensagem. De qualquer forma, o tecido simbólico de nossa vida é influenciado pela mídia, que fornece a matéria-prima para o funcionamento de nosso cérebro. Como parece ser incorreta a aceitação de uma cultura de massa, por outro lado verifica-se uma constante segmentação da audiência por ideologias, valores, gostos e estilos de vida, fazendo com que a descentralização, diversificação e adequação ao público-alvo sejam o futuro da televisão. Não vivemos, portanto, em uma aldeia global, mas em domicílios sob medida. Essa característica, iniciada na VT, foi altamente potencializada pela Internet, principalmente porque a maior parte das comunicações na rede ocorre de maneira espontânea e não-organizada. Essa abertura à diversidade é conseqüência da concepção inicial da Internet, tanto de concepção militar como contracultural, esta última evidenciada pela informalidade e capacidade auto-reguladora de comunicação. As redes de comunicação mediadas por computador, assim, têm por características a penetrabilidade, a descentralização e a flexibilidade, alastrando-se como microorganismos, tendo culturalmente embutida em sua estrutura as propriedades de interatividade e de individualização. Esses são os requisitos da atual formação de comunidades virtuais, em geral organizadas em torno de interesses comuns, emergindo assim uma nova forma de sociabilidade e de vida adaptadas ao novo ambiente tecnológico on-line. Essas redes são apropriadas à formação de laços fracos, diversificados e especializados, úteis ao fornecimento de informações de baixo custo, formando uma camada fundamental de interação social, mas que também contribui para uma rápida individualização e verdadeira ruptura cívica. Essa abertura estrutural da comunicação mediada pelo computador, em outro sentido, também pode significar uma oportunidade de reversão dos jogos de poder tradicionais no processo comunicacional, melhorando o status de grupos comumente subordinados. Isso pode ser visto em conjunto com a inteligente utilização das tecnologias na democracia local, com experimentos de participação eletrônica dos cidadãos, demonstrando o grande potencial das redes de computador para o debate local auto-organizado e público. Ressalve-se, contudo, tendo-se em perspectiva o fato de que o acesso à tecnologia é seletiva, esse potencial pode fazer reforçar o papel das redes sociais culturalmente dominantes. Em todo caso, esse é o pano de fundo de um processo de transição para a “Sociedade da Informação”, fenômeno reconhecido pelos países da União Européia que têm estabelecido foros estratégicos para a construção da Sociedade Informática Européia. Na Internet, apesar desses esforços para favorecimento da educação e cultura, o que tem prevalecido é uma enorme rede de entretenimento, não obstante pesquisas indicarem um forte interesse das pessoas para usos políticos, comunitários e educativos, em vez de mais opções de entretenimento. Aquela prevalência ocorre porque a geração de riqueza com entretenimento eletrônico demonstra ser um investimento seguro do ponto de vista empresarial. Ainda assim, a segmentação dos interesses e a capacidade interativa têm proporcionado mais poder ao usuário da mídia, pois ele passa a decidir seu “horário nobre”, formando uma cultura de massa personalizada ao mesmo tempo em que se constituem comunidades interativas auto-selecionadas. Todas essas formas de comunicação, educativo, videogames, noticiários, novelas, música e esporte acabam trocando códigos entre si, fazendo com que a multimídia capte a maioria das expressões culturais, denotando o fim da separação entre mídia audiovisual e impressa, cultura popular e erudita, entretenimento e informação. Como já mencionado, não há separação entre a realidade e sua representação simbólica, fazendo parecer serem incorretas as críticas de que o novo ambiente simbólico não representa a “realidade”, pois significaria aceitar um absurda idéia de experiência real não-codificada. Toda realidade é percebida de forma visual – explica-se: virtual é tudo o que existe na prática ainda que não estrita ou nominalmente; real é o que existe de fato; portanto, a realidade vivida de forma virtual não deixa de ser realidade. Aliás, a inclusão da maioria das expressões culturais por canais eletrônicos tem tido efeitos importantes para os processos culturais, especialmente quanto ao poder simbólico dos emissores tradicionais fora do sistema, como a religião, moralidade e ideologia política. Esse novo sistema de comunicação modifica radicalmente a percepção cultura de tempo e espaço, que são dimensões essenciais da vida humana. O faz-de-conta torna-se realidade.

6 de fev de 2007

A Sociedade em Rede - Cap. 4

Capítulo 4 – A transformação do Trabalho e do mercado de Trabalho: Trabalhadores ativos na rede, desempregados e trabalhadores com jornada flexível.

A principal maneira com que a globalização afeta a sociedade é por meio das transformações tecnológicas e administrativas das relações produtivas, que acabam ocorrendo em uma estrutura mais ampla tendente à individualização do trabalho e fragmentação das sociedades. Uma vez que tanto a produção industrial quanto a rural e de serviços são baseadas em conhecimentos, não há que se falar em uma época pós-industrial, mas em informacionalismo. Até porque, a suposição básica da teoria pós-industrial quanto à migração do trabalho da indústria para os serviços não condizem com a realidade. Esse equívoco ocorreu tanto porque os estudos foram realizados inicialmente nos EUA, desconsiderando a rede transnacional interdependente de produção, como porque as estatísticas utilizavam critérios ambíguos, mascarando as verdadeiras transformações. Além disso, a percepção original da teoria imaginava uma expansão das profissões ricas em informação, que na prática veio acompanhada de semelhante aumento das profissões não-qualificadas, tendendo o sistema a uma estrutura polarizada entre extremos, com redução da camada intermediária. Pode-se dizer, no entanto, que esses elementos, ao contrário do preconizado pela teoria pós-industrial, não levam a um modelo único de sociedade informacional. Assim, a diminuição significativa da mão-de-obra industrial e aumento daquela vinculada aos serviços, em geral refere-se a uma política e a um contexto social, cultural e político específico, significando uma readequação da rede em algum outro nó. Demonstração dessa circunstância se dá pela verificação de que sociedades igualmente informacionais possuem estruturas ocupacionais marcantemente diferentes. É importante ressaltar, ainda, que essas sociedades informacionais certamente são desiguais, mas isso ocorre menos em razão dessa nova estrutura do que das discriminações relativas à força de trabalho referentes à etnia, à nacionalidade e ao sexo. Essas características estão embutidas em uma rede que se caracteriza pelo ressurgimento do trabalho autônomo e da situação profissional mista, possível por meio das novas tecnologias. Além disso, verifica-se que o emprego rural tende à eliminação, com leve declínio do emprego industrial e aumento dos serviços relacionados à produção, saúde e educação (assim como do emprego de baixa qualificação em setores varejistas e de serviço). Isso demonstra o fenômeno já mencionado: acréscimos simultâneos no topo e no pé da escala social, vislumbrando-se a estratificação e polarização profissional. Diante do aumento de produtividade em razão das inovações tecnológicas e organizacionais, os trabalhadores migram da produção direta, do cultivo, da extração e da fabricação para o consumo de serviços e trabalhos administrativos, ampliando substancialmente a gama de atividades econômicas e o universo profissional. Empiricamente, além dos aspectos já mencionados, observa-se um rápido aumento de administradores, profissionais especializados e técnicos, além da formação de um proletariado “de escritório”. As diferentes formas de composição desses processos ocorrem de acordo com as especificidades de cada país, apresentando-se hoje dois modelos básicos, um de economia de serviços e outro de produção industrial, o primeiro representado primordialmente pelos EUA e o segundo pelo Japão. Esses modelos dependem, também, da posição do país na economia global, pois se um país adota um modelo de “economia de serviços” significa um papel de produção industrial para outro país. Eis a razão pela qual as estruturas laborais dos EUA e do Japão representam diferentes maneiras de articulação na economia global. Uma compreensão de todas as ocorrências mencionadas, de globalização financeira e produtiva, faz vir à tona um questionamento: haveria também uma força de trabalho global? Em verdade, existe um mercado global para uma pequena fração de profissionais de alta especialização, mas para a maioria da população mundial o emprego permanece local, principalmente no campo. Não obstante, mesmos estes, que estão ausentes da teia, acabam dependentes da evolução e comportamento de segmentos da rede, em uma clara interdependência global da força de trabalho na economia informacional. Tal fato não é conseqüência necessária do paradigma informacional, mas resultado de políticas de governos e empresas que escolheram uma “via baixa” na transição, principalmente em busca de lucros de curto prazo. Essas diversificadas e descentralizadas políticas, governamentais e privadas, são fontes básicas do impacto da tecnologia na organização da produção e do trabalho, o que faz do modelo um tecido complexo de interação entre transformação tecnológica, política das relações industriais e ação social conflituosa. O novo modelo aumenta a importância dos recursos intelectuais de trabalhadores autônomos e instruídos, que possam e queiram programar e decidir seqüências completas de trabalho. Por outro lado, faz desaparecer trabalhos que podem ser pré-codificados e programados para execução por máquinas, deixando mais tempo para utilização do potencial humano para atividades que exijam capacidades de análise, decisão e reprogramação em tempo real. Essa forma informacional de organização do processo produtivo é determinada, principalmente, pelo fato de que não somente o valor agregado se dá pela inovação, mas também porque essa inovação depende de pesquisa executadas eficientemente e com sistemas de feedback, o que ocorre, geral, nas organizações. A tecnologia é decisiva, nesse contexto, porque determina aquela capacidade de inovação, permite a correção de erros e oferece a flexível e adaptável infra-estrutura para a produção. Para que o sistema funcione, há necessidade de um alto nível de qualificação da força de trabalho, para que ajam com liberdade, mas sempre trabalhando de forma cooperativa, em interação e constante processamento de informação entre trabalhadores, administração e máquinas. Na base desse processo, por sua vez, há uma crescente rotinização e automação, que racionaliza o procedimento por inteiro. Porém, ao contrário do que muitos imaginam, esse novo padrão flexível, inclusive de trabalhos autônomos, não parece levar ao fim dos empregos, já que análises empíricas demonstram que quando um progresso tecnológico substitui o trabalho por novas ferramentas, as atividades migram de um tipo para outro. Muitas dessas novas vagas sequer existem ainda hoje. Igualmente, não há evidências estatísticas de que a evolução tecnológica induza o desemprego, que em geral ocorre muito mais por políticas macroeconômicas incorretas e ambientes desestimulantes. Um horizonte de redução potencial do emprego ocorrerá somente em uma conjunção de expansão da demando sem aumento de produtividade, aliada a uma ausência de providências institucionais, como redução da jornada de trabalho, parecendo serem exageradas as previsões os temores em relação à automação e ao emprego na era informacional, sobre os quais pesam variáveis específicas de setores e empresas. Isso acontece porque a rápida transformação tecnológica em geral esteve associada ao aumento da demanda e da produção, que não obstante representar menos trabalho por unidade de produção, significa também a necessidade de mais tempo de trabalho em termos absolutos. Em síntese, não existe relação entre difusão de tecnologia e níveis de emprego na economia vista no todo, pois empregos são extintos e criados, variando de setores, regiões e países de acordo com a as políticas, estratégias e competitividade na economia global, apesar da tecnologia modificar profundamente a natureza do trabalho e forma de produção. Esse processo, sem contraposições, levará a uma dualização da estrutura social. Nesse novo mundo, a forma tradicional de trabalho, de período integral e carreira ao longo da vida, não será dominante, caminhando-se para uma deterioração das condições de vida e trabalhão a um número grande de trabalhadores, como resultado da reestruturação da relação capital-trabalho, da utilização de poderosas ferramentas informacionais e da forma organizacional da empresa em rede. É assim que a produtividade e a lucratividade aumentam, mas levou a uma perda de proteção institucional dos trabalhadores, que dependem cada vez mais de negociações individuais, em um processo de desagregação do trabalho, introduzindo a chamada sociedade em rede.

A Sociedade em Rede - Cap. 3

Capítulo 3 – A Empresa em Rede

O surgimento da economia informacional se deu com a criação de uma nova lógica de organização baseada no novo paradigma tecnológico. A primeira percepção desse fenômeno se dá na identificação da transição da produção em massa para um modelo de produção flexível, ou seja, unidades de produção programáveis e flexíveis à variação de mercado, somente possível em razão das transformações tecnológicas. Igualmente, as empresas de pequeno e médio porte aparentam terem as características necessárias a esse novo mercado, porém isso ocorre, em geral, em um contexto de subordinação às grandes empresas, que se mantêm no centro da economia. Outra evolução observada refere-se aos novos modos de gerenciamento, havendo uma horizontalização da estrutura empresarial, permitindo uma diferenciação dos componentes de trabalho e capital em unidades de produção semi-autônomas, formando uma rede flexível. Quanto a essa formação em rede, ela se dá não só internamente, mas também em relação a empresas de pequeno e médio porte, em busca de nichos de mercado e empreendimentos corporativos. Além dessas novas formas de articulação das empresas, também ocorre a interligação entre aquelas de grande porte, para celebração de alianças estratégicas, formando uma complexa teia de acordos e joint ventures. É dessa maneira que suas operações ocorrem em conjunto com centenas e até milhares de subcontratadas, além de dezenas de parcerias com empresas de mesmo porte, com as quais cooperam e competem ao mesmo tempo. De todas essas características, que são relativamente independentes entre si, a principal parece ser a mudança de burocracias verticais para a empresa horizontal, já que a formação de redes garantiu a flexibilidade, mas não ofereceu a necessária adaptabilidade da empresa. De qualquer forma, a grande empresa, desde que consiga formar uma rede articulada com centros semi-autônomos de processos decisórios, tende a constituir-se uma forma superior de gerenciamento na nova economia, ou seja, uma “empresa horizontal”. Essa se caracteriza, assim, em uma dinâmica rede descentralizada constituída de unidades autoprogramadas e autocomandadas baseadas na participação e coordenação. Todas aquelas tendências levaram à desintegração do modelo de burocracias racionais e verticais de grandes empresas que tinham a produção padronizada em massa como padrão. A rigidez das culturas corporativas tradicionais foi o maior obstáculo a ser superado. Por isso, a crise foi inevitável e, dentre as diversas propostas, apenas algumas tiveram sucesso em criar contextos institucionais adequados à competitividade. Essa necessidade de modificação estrutural fez com que os avanços ocorressem independentemente das transformações tecnológicas, porém aproveitou-se dela para intensificar a reorganização da empresa em rede, ou seja, as mudanças organizacionais motivaram, de certa forma, a trajetória da tecnologia. Foi assim que o instrumental tecnológico adequado, disponível somente na década de 90, permitiu a criação de procedimentos flexíveis, cooperativos e interativos para o gerenciamento, a produção e a distribuição de bens e serviços. Eis porque se pode considerar que a interação entre a crise organizacional e as novas tecnologias determinou o surgimento de uma nova forma organizacional: a empresa em rede. Esta se constitui pela intersecção de segmentos de sistemas autônomos de objetivos, visando gerar e processar eficientemente informações, de forma a permitir a adaptabilidade, inovação e flexibilidade que permitam adequação às rápidas transformações culturais, tecnológicas e institucionais. Todavia, essas redes não determinam o fim das empresas multinacionais, que, em verdade, muitas vezes são o centro de grandes alianças. As redes cooperativas de pequeno e médio porte acabam desempenhando um papel secundário nos principais setores. As multinacionais são, hoje em dia, redes interoganizacionais, ou seja, uma rede inserta em uma rede externa. É dessa maneira que a estrutura do mercado é influenciada não somente pela oferta e procura, mas também por estratégias ocultas nas redes globais de informação. Em síntese, os elementos constitutivos desse espírito do informalismo são as redes de empresas formadas com base em ferramentas tecnológicas de informação e comunicação, visando adaptação a uma concorrência global, sendo o Estado um elemento decisivo nesse processo. Esse espírito, portanto, é uma cultura de “destruição criativa”, acelerada por circuitos optoeletrônicos que processam seus sinais em alta velocidade.

5 de fev de 2007

A Sociedade em Rede - Cap 2

Cap. 2 – A nova economia: informalismo, globalização, funcionamento em rede.

Uma nova economia, informacional e global, surgiu nas últimas três décadas, organizando-se em uma rede que aplica conhecimento, administração e tecnologia no próprio conhecimento, administração e tecnologia. Nesse ambiente, em que a produtividade impulsiona o progresso, as características da sociedade são fatores subjacentes ao crescimento, pela maneira como se articula a inovação tecnológica. Porém, em uma aparente contradição, no mesmo período em que a revolução da tecnologia teve início observa-se uma tendência de diminuição da taxa de crescimento da produtividade, o que poderia indicar não haver diferença, na questão da produtividade, entre a era “industrial” e a “informacional. Em relação a esse ponto, primeiro é de se destacar que normalmente há uma defasagem temporal entre a inovação tecnológica e a produtividade da economia, já que a difusão dos novos processos nas instituições e culturas precisa passar por mudanças fundamentais antes da intensificação da produtividade. Isso faz com que a modificação do paradigma tecnológico nos anos 70 somente se consolidasse na década de 1990, o que justificaria a misteriosa desaceleração da produtividade no período, além do fato de que as estatísticas se demonstraram cada vez menos adequadas à nova situação. Este último fator, se revisto seu método, pode indicar que, nas décadas de 80 e 90, a produtividade tenha, na verdade, aumento por vias particularmente obscuras, envolvendo mudanças organizacionais que se difundiam a partir da produção de tecnologias da informação, telecomunicação e serviços financeiros. Assim, o extraordinário crescimento da produtividade na indústria de computadores deve ser interpretado como o formato predominante na nova economia. Por outro lado, enquanto a produtividade é a fonte de riqueza das nações, a lucratividade e a competitividade são os determinantes para a inovação tecnológica. Por essa razão, a busca por novos mercados determinaram o grande aumento do comércio e do investimento estrangeiro direto nas últimas duas décadas do século XX, apresentando-se com o motor de crescimento no mundo todo. Para que isso fosse possível, o capital precisou de imensa mobilidade e uma capacidade informacional muito grande. Demonstra-se, assim, que o conector entre tecnologia da informação, alterações organizacionais e crescimento de produtividade, em grande parte, é a concorrência global, indicando à economia industrial que a opção era globalizar-se ou desaparecer. Essa perspectiva de alterações estruturais causou uma destruição criativa em grandes setores da economia, fazendo com que o primeiro estágio da revolução da informação se constituísse em vantagens e desvantagens para o progresso econômico. Para esse raciocínio, considera-se que a economia global é aquela onde os componentes centrais têm capacidades institucionais para trabalhar em unidade e tempo real ou escolhido, em escala planetária. A seqüência temporal desses fatos nos indica que a interdependência global dos mercados financeiros decorreu da desregulamentação e liberalização dos mercados, da criação de uma infra-estrutura e tecnológica, da natureza dos novos produtos financeiros, como derivativos, das movimentações especulativas financeiras e, finalmente, da intervenção de firmas de avaliação do mercado mundial, como a Standard & Poor ou Moody’s. Essa interdependência condiciona as políticas monetárias e as taxas de juros em todos os países da rede, demonstrando que a globalização desses mercados é a espinha dorsal da nova economia global. Já em relação ao comércio internacional, este passa por uma profunda transformação, tendo o componente de conhecimento quanto a bens e serviços como sendo o fator decisivo no valor agregado, fazendo que uma orientação à exportação, dependendo da quantidade de informações que incorpore seus bens e serviços, não garanta o desenvolvimento de uma economia. Tal fato faz com que a nova divisão internacional de mão-de-obra mantenha o predomínio dos países da OCDE, em razão da intensidade do aprofundamento tecnológico e do comércio de serviços. De outro lado, a formação de blocos regionais, que parecia indicar um caminho para a uma estrutura regionalizada do comércio, apresentou-se, em verdade, como uma configuração de padrões de comércio em camadas e redes, o que não permite observar os países como unidade de comércio e concorrência. Nessa estrutura, as multinacionais apresentam papel importante, formando redes descentralizadas e organizadas em unidades semi-autônomas, em uma verdadeira “rede global” que é disseminada por territórios de todo o mundo, tendo uma geometria variável em cada unidade. Esse novo sistema de produção depende de alianças estratégicas de cooperação entre empresas, em razão da necessidade de uma forma flexível de acessos a tecnologias de comunicação. Essa configuração, distribuída desigualmente no globo, dá forma ao novo padrão de produção global e comércio internacional.

É certo que, como dito, a produtividade e a competitividade no paradigma informacional dependem da geração de conhecimentos, em um padrão de interdependência tecnológica não plenamente demonstrada pelas estatísticas. Sabe-se que o sistema de pesquisas acadêmicas é global, por que se não for deixa de ser científica. Porém, ele reflete uma dinâmica de exclusão dos interesses de um número significativo de pessoas, em razão de sua concentração em determinados contextos e países de economia avançada, fazendo com que a globalização seletiva da ciência desestimule a globalização da tecnologia. Até porque, a pesquisa acadêmica avançada é necessária, mas não suficiente, para o ingresso na era informacional, pois precisa de uma conexão com a tecnologia, o setor industrial e políticas nacionais e internacionais. Percebe-se, assim, que o Estado continua tendo papel importante no fornecimento de recursos humanos e infra-estrutura tecnológica, não obstante o fato de que o desenvolvimento científico e tecnológico desigual deslocaliza a lógica da produção nacional, deslocando-a para as redes globais multilocalizadas. Apesar desse processo de globalização da produção e do comércio, a mão-de-obra, com exceção de uma elite especializada, em sua maior parte é local. Contudo, percebe-se uma tendência de migração cada vez maior, surgindo um sistema de camadas de múltiplas conexões entre milhões de pessoas de várias culturas e entre fronteiras. Em resumo, a economia global não se refere a todas as economias, territórios e atividades, não obstante afete, direta ou indiretamente, a vida de todas as pessoas. Essa interligação, desigual, acaba tendo por característica uma assimetria entre os países, tendo um grupo de territórios e povos ligados nas redes de geração de valor e outros que, não tendo valor na rede, são descartados, caracterizando um sistema instável, dinâmico, seletivo e exclusionário. Ainda que a maior parte das pessoas não trabalhe para a economia global, todos os processos econômicos e sociais acabam tendo relação com sua lógica dominante. Essa lógica teve impulso determinante na década de 90, quando se expandiu por todo o globo por meio de pressão política de organismos internacionais como o FMI, o Banco Mundial e a OMC, visando à liberalização das economias nacionais. Isso foi possível porque, naquela década, grande parte do mundo em desenvolvimento e economias em transição dependiam de auxílios econômicos e quem perdesse a confiança do FMI tornava-se um pária financeiro. A OMC, criada em 1994, veio completar esse quadro instrumental no aspecto comercial. Dessa forma, políticas liberalizantes foram implantadas, com a promessa de um novo começo, o que ocorreria com apoio das potências mundiais, o qual realizaria milagres econômicos e institucionais nos países envolvidos. Aliás, em muitos deles, essa guinada histórica ironicamente ocorreu pelas mãos de reformadores que provinham da esquerda em sua maioria, rompendo com seu passado. Foi dessa maneira que a economia foi criada politicamente, apesar de não poder ser desfeita dessa forma, já que a configuração em rede do sistema faz com que qualquer nó desconectado passe a ser ignorado, enquanto os recursos permanecem a circular no resto da rede. Essa nova economia é, sem dúvida, capitalista, porém distinto daquele modelo clássico keynesiano. Pela primeira vez, todo o mundo é capitalista ou dependente da rede global capitalista, que tem um grande potencial de indução ao período longo de crescimento econômico, com a ressalva de que contém, em si, processos estruturalmente excludentes.

4 de fev de 2007

A Sociedade em Rede - Cap. 1

A Sociedade em Rede - Manuel Castells
Capítulo 1

Nas últimas três décadas, o cenário social da vida humana tem passado por uma revolução concentrada nas tecnologias da informação, que alterou as bases da economia, do Estado e da sociedade em um sistema de geometria variável. Isso ocorre em um momento em que os sistemas de representação política passam por uma crise de legitimidade, em grande parte como conseqüência de escândalos amplamente cobertos pela mídia, e em que as pessoas buscam ansiosamente por uma identidade onde possam se sentir seguros, seja pela religião, etnicidade, território ou nacionalidade. Deve-se ter especial atenção para que essa crise não leve a um rompimento da comunicação entre os grupos sociais e os indivíduos, que pode ocorrer pela suposição implícita de impotência ante um destino inevitável. A tecnologia tem um papel importante nessa construção.

Primeiramente, deve-se ter em conta que claramente a tecnologia não determina a sociedade, dado que a tecnologia é a sociedade e suas ferramentas não a representam por inteiro. Da mesma forma, embora a sociedade não determine a tecnologia, ela pode represar ou promover seu desenvolvimento, principalmente por meio do Estado, já que o mesmo sempre foi o primordial patrocinador do desenvolvimento tecnológico, na medida em que expressa e organiza as forças sociais em um determinado tempo e espaço.

O surgimento dessa nova estrutura social manifesta-se por uma variedade de culturas e instituições, associada a um novo modelo de desenvolvimento, o informalismo. A percepção dessas alterações parte da perspectiva teórica de que as sociedades se organizam em processos estruturados pela inter-relação histórica entre produção, experiência e poder, cuja dinâmica se mostra em alteração profunda. Nesse novo modo de desenvolvimento, o processamento da informação por meio da tecnologia de geração de conhecimentos é fonte de produtividade. Contudo, sua grande diferenciação em relação a outros modos de desenvolvimentos anteriores, que também utilizavam o conhecimento como base, é que, agora, a ação do conhecimento converge para o próprio conhecimento. Essa estrutura difunde-se por toda a estrutura social, modelando a esfera de comportamento social e comunicação simbólica, determinando o surgimento de novas maneiras de interação, controle e transformação social.

O meio decisivo de difusão desse paradigma se deu pelo processo de reestruturação capitalista, para o qual a inovação tecnológica e a modificação das organizações com foco na flexibilidade e adaptabilidade foram essenciais para permitir a sua velocidade e eficiência. Não obstante cada país reagir de forma específica a esse processo, de acordo com suas expressões culturais e institucionais particulares, hoje todas as sociedades são afetadas pelo capitalismo e pelo informacionalismo.

Essas novas tecnologias integram o mundo em redes, onde a comunicação mediada por computadores têm gerado comunidades virtuais que parecem organizar-se em torno de identidades primárias como meio de construção de significado. Por outro lado, aqueles que estão excluídos da rede respondem com a exclusão da lógica unilateral da dominação estrutural, em um processo recíproco de desligamento, cuja reconstrução do significado ocorre, principalmente, com bases étnicas e religiosas, desaguando na intolerância cujos efeitos são bem conhecidos.

Estamos diante de uma revolução, mas de que revolução é essa? É certo que a história ocorre normalmente em períodos de situações estáveis, permeadas periodicamente por ocorrências rápidas e importantes que estabelecem uma próxima era estável. Estamos em um desses raros momentos da história. As tecnologias que propiciam essa transformação não são somente o conjunto convergente de microeletrônica telecomunicação e optoeletrônica, mas também a engenharia genética e suas aplicações na reprogramação dos códigos de informação da matéria viva. As profundas modificações na economia, na sociedade e no estado, em seu conjunto, determinam a existência de um evento histórico da mesma importância da Revolução Industrial, tendo a tecnologia importância para o momento atual de forma análoga à que as energias tiveram anteriormente. Todavia, o que caracteriza a atual revolução tecnológica, e a diferencia essencialmente da revolução anterior, é a utilização da informação para geração de dispositivos de processamento e comunicação da informação, em um ciclo de realimentação entre a inovação e seu uso. As novas tecnologias são processos a serem desenvolvidos e não ferramentas a serem aplicadas, pois os usuários e criadores podem ser os mesmos. Ambas as revoluções, industrial e informacional, modificaram os processos por todo o sistema econômico e tecido social, sendo que esta última cria a base material para um movimento rumo à expansão da mente humana.

As mudanças nessa direção aceleraram-se fortemente somente na década de 60, apesar do passo decisivo ter sido dado em 1957, com a invenção do circuito integrado por Jack Kilby. Isso porque o avanço gigantesco da microeletrônica se deu em 1971, quando Ted Hoff, inventou o microprocessador, que é o computador constituído de um único chip, que colocou o mundo de pernas para o ar. Em 1975, Ed Roberts desenvolve o Altair, primeira “caixa de computação” ao alcance da população. A Apple, criada em 1976, popularizou o computador e, em 1982, já vendia US$ 583 milhões, com reação imediata da IBM, que lançou seu Computador Pessoa (PC), tornando-se o nome genérico dos microprocessadores. O Macintosh, da Apple, lançado em 1984, foi um passo determinante para a facilitação do uso do computador, com interface baseada em ícones.

Por outro lado, o software para PCs surgiu em meados dos 70, a partir do trabalho de Bill Gates e Paul Allen, que adaptaram o BASIC para o Altair, fundando, na seqüência, a conhecida Microsoft. Posteriormente, já na década de 90, a miniaturização, a especialização e a queda dos preços dos microprocessadores equipamentos fizeram com que os mesmos se espalhassem por máquinas em nossas rotinas diárias, de lava-louças a veículos. Assim, o custo médio de processamento saiu de cerca de U$ 75,00 por cada milhão de operações, em 1960, para menos de um centésimo de centavo de dólar em 1990. A formação de redes, porém, só se tornou possível com a ampliação das redes de comunicação que, por sua vez, somente se viabilizou com as novas tecnologias, em mais um exemplo de aplicação da relação sinérgica da revolução em andamento. Essa capacidade de transmissão optoeletrônica da informação, que constitui a base da Internet, é estruturada em arquiteturas de computação e roteamento, como ATM e TCP/IP. Aliás, o desenvolvimento da Internet se deu em conseqüência da interação de fatores militares, cooperação científica e tecnológica e inovação contracultural. Estratégia militar requeria um sistema de comunicação invulnerável a ataques nucleares, o que se consubstanciou em uma rede independente de centros de comando e trocas de informações por pacotes, que procuravam seu próprio caminho para chegar a qualquer ponto da rede. Assim, a primeira rede de computadores foi a ARPANET, que iniciou suas atividades em 1° de setembro de 1969. Para que os computadores pudessem comunicar entre si, porém, era necessária a criação de um protocolo padronizado, o TCP/IP, que conseguiu hegemonia e foi adotado em todo o mundo. Já em 1978 foi criado o primeiro modem para PC, em um movimento de contracultura, que permitia a transferência direta de arquivos entre computadores sem passar por um sistema central, ou seja, sem passar pela ARPANET. Essa conjunção de fatores viabilizou, ao final, que qualquer pessoa com conhecimentos tecnológicos e um PC pudesse participar de uma rede horizontal, apesar de que, ainda em 1990, os não-iniciados ainda tinham dificuldade para usar a Internet e os recursos gráficos eram bastante limitados. Foi então que, neste ano, em um centro de pesquisa na Europa – o CERN - desenvolveu-se a Word Wide Web – WWW. O CERN criou um formato para documentos flexíveis em hipertexto (HTML), bem como um protocolo de transferência dos mesmos – o HTTP – e, ainda, um formato padronizado de endereços - URL. Na seqüência, foram criados navegadores (browsers) que permitiam “surfar” na rede, criando uma verdadeira teia mundial.

Esse formato aberto e flexível da rede tornou-se aplicável a todos os tipos de atividades, em diferentes contextos locais e culturais, conectando-os eletronicamente. O surgimento desse novo sistema especificamente na década de 1970, com concentração nos EUA e na Califórnia, é atribuído a uma dinâmica específica de difusão e sinergia tecnológicas, decorrentes dos progressos alcançados nas duas décadas anteriores e com influência de aspectos institucionais, econômicos e culturais. Na década de 80, em um processo autônomo de reestruturação do sistema capitalista, o nível tecnológico alcançado exerceu papel fundamental na reestruturação organizacional e econômica, sendo na verdade moldado por ela. Assim, a revolução tecnológica foi decorrente de um conjunto de circunstâncias culturais, históricas e espaciais específicas e que determinaram sua evolução. O desenvolvimento dessas tecnologias contribuiu para a formação de meios de inovação onde as aplicações interagiam em um processo de tentativa e erro, exigindo a concentração espacial dos núcleos tecnológicos de empresas e instituições, com uma rede auxiliar de fornecedores e capital de risco como apoio. Portanto, conhecimentos científicos/tecnológicos, instituições, empresas e mão-de-obra qualificada são as bases da Era da Informação. Por outro lado, o ingrediente primordial não é o cenário cultural ou institucional, mas sinergia entre conhecimentos e informações com a produção industrial e aplicações comerciais, o que desmistifica a idéia de inovação sem localidade geográfica. De qualquer forma, é certo que foi o Estado, e não empreendedores de garagens, quem deu início à revolução da tecnologia da informação, já que a interface entre os programas de macropesquisa promovidos pelo governo e a inovação descentralizada em uma cultura de criatividade tecnológica é que permite o florescimento das novas tecnologias da informação. Todo esse processo criou um novo paradigma, onde a informação é sua matéria prima. A tecnologia passa a permear toda a atividade humana, aplicando a lógica de redes em qualquer sistema ou conjunto de relações, que crescem exponencialmente. O paradigma da informação é baseado da flexibilidade, permitindo não somente que processos, mas também organizações e instituições se modifiquem fundamentalmente, tornando possível inverter as regras sem destruir a organização, percepção que deve ser tomada sem ideologias, pois a flexibilidade tanto pode ser libertadora como repressiva. Em todo caso, a tendência desse paradigma é a convergência de tecnologias específicas em um sistema integrado, resultante da lógica compartilhada na geração de informação. Nesse contexto, mostra-se conveniente uma aproximação do tema que seja metodologicamente não-linear, que é a característica da teoria da complexidade. Em síntese, o paradigma informacional evolui em direção a uma rede aberta de múltiplos acessos, cuja abrangência, complexidade e disposição em forma de rede são seus principais atributos.

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